O dia que o estado quase acabou com minha vida

A minha infância não foi fácil. Meus pais biológicos se separaram quando eu ainda era um bebê. Minha mãe logo se casou com outro homem. Viciado e alcoólatra. Ele nunca gostou de mim. Sempre me batia quando tinha oportunidade. Quando estava louco de crack e cachaça, chegava a espancar a mim e as outras crianças. A sim, ele a engravidou 5 vezes depois que se juntaram. As condições que eu vivia eram deploráveis e quase sub-humanas. Não havia sequer energia elétrica. A comida era pouca. Minha mãe não estudou e nunca procurou trabalhar. Sempre viveu às custas dos outros. O marido dela não era diferente. Dois encostados. Não cheguei a passar forme, porque as pessoas sempre ajudavam com alimentos. É claro, que o viciado sempre pegava boa parte dos mantimentos, até botijão de gás, para trocar por pedra de crack. Bem, essa era a situação que eu vivia até meus 10 anos.

Mas um belo dia, um tio resolveu me adotar. Me levou para sua casa. Fui recebido pela sua família de braços abertos. Foram alguns meses felizes na minha vida. Adorava ir para escola, comer uma boa comida, dormir numa bela cama e brincar com outras crianças. Mas não durou muito.

Um dia, meu tio me levou a um lugar bem chique, cheio de pessoas engravatadas e roupas sociais. Era uma Vara de justiça da família, eu não sabia o que era na época. Me lembro que estava ali sem saber o que estava acontecendo. Depois de alguns minutos, meu tio ficou muito nervoso e disse que eu tinha que voltar a morar com minha mãe. Foi o pior dia da minha vida.

Cada dia que passei naquela casa, era como ficar no inferno. No entanto, o pior ainda estava por vir…

Numa noite qualquer, estava dormindo ainda, mas abri os olhos e vi um pedaço de madeira vindo em minha direção, virei de costas e aquilo me acertou em cheio. Fiquei sem ar. Demorou um pouco até eu perceber que estava sendo espancado pelo desgraçado do meu padrasto. Ele estava louco de droga. Me bateu e foi embora.

Naquele dia não dormi. Estava decidido a ir embora. Esperei o sol aparecer. E quando deu o primeiro raiar, eu vesti minha roupa e fui embora para nunca mais voltar.

Sei que depois disso, fiquei um tempo na casa do meu avô, morei na casa de amigos até ter condição de procurar meu próprio canto. Hoje, eu tenho consciência que minha história é a realidade de muitas crianças. E sei que a maioria não tem a oportunidade de conhecer pessoas boas para lhe ajudar e estender as mãos, diferente de mim, e que muitas vão direto para o mundo do crime. Só tenho a agradecer a Deus por ter colocado as pessoas certas na minha vida.

Mas a moral aqui não é minha história. Mas como o estado, por meio de seus agentes especialistas em leis ( ou não), são ineficientes e incapazes de decidir o que é bom ou mau para pessoas livres. Afinal, somente as própria pessoas podem decidir o que é bom ou mau para elas mesmas. No dia que fui arrancado do meu tio, a lei estava à favor da minha mãe, e o agente estatista apenas viu isso. Na cadeira de juiz especialista em leis, não procurou saber quais eram as condições que eu era submetido, e não fez a coisa mais importante: não perguntou ao interessado principal, a própria criança. Com uma canetada ele quase destruiu o futuro de um menino, porque a lei dizia que era o certo a fazer.

As leis deveriam existir para proteger os inocentes de agressões, e não provocar mais agressões.